domingo, 19 de setembro de 2010

Você já escolheu seu deputado?

Você já deve ter ouvido essa pergunta algumas vezes; contudo, talvez seja a escolha mais difícil para a maioria das pessoas, principalmente porque há um verdadeiro menosprezo institucional para esta questão.

Todos sabemos que precisamos votar; todavia, nem sempre sabemos para que estamos votando. A lei obriga as pessoas em determinada faixa etária a votarem com risco até de ter o direito de ir e vir suspenso por causa das obrigações eleitorais; no entanto, não há lei que obrigue as pessoas a saberem as funções de cada um dos nossos representantes, nos quais somos obrigados a votar.

A nossa República é formada por três poderes: o Executivo, que executa as leis; o Legislativo, que elabora as leis; e o Judiciário, que fiscaliza as leis. Apesar de serem três poderes oficiais, a população brasileira pode escolher apenas dois: o Executivo, cuja campanha é extremamente cara e abrangente; e o Legislativo, cuja campanha é bastante peculiar.

Os poderes supracitados estão organizados nos níveis administrativos federal, estadual e municipal. No nível executivo, o presidente exerce o poder executivo federal; o governador, estadual; o prefeito, municipal. No nível legislativo, os deputados federais e senadores exercem o poder legislativo federal; os deputados estaduais, estadual; e os vereadores, municipal.

Até aqui, não há novidade nenhuma. Em todo caso, é muito mais fácil para qualquer eleitor com algum grau de conhecimento e consciência política saber que estamos em eleições federais e estaduais – ou seja, não há eleição para prefeito nem para vereador neste ano. Assim, se alguém promete fazer algum tipo de obra ou investimento na localidade, tal promessa pode ser falsa, pois o tal candidato, se eleito, terá outras obrigações.

Para começo de conversa, quem faz obra é o poder EXECUTIVO – ou seja, prefeitos, governadores e presidente da República. Vereadores, deputados e senadores podem, no máximo, solicitar a realização de uma obra ou outra, desde que o orçamento votado no legislativo permita – somente nesse ponto é possível o vereador, o deputado ou o senador solicitar (e não fazer) a bendita obra.

Os candidatos ao poder executivo possuem grande exposição na mídia. Isso vai desde a propaganda eleitoral gratuita, que passa tanto no horário reservado para isso quanto em intervalos comerciais, até à promoção de debates e entrevistas promovidas pelas emissoras de rádio e televisão.

Quanto aos candidatos ao poder legislativo, o que resta? É dada tanta importância ao poder executivo que pouquíssimos se lembram de dar atenção ao poder legislativo. Você já viu algum debate entre candidatos a deputado ou a senador? E que importância eles têm? Por quê é preciso olhar para eles?

Como eu havia falado no início deste texto, nossa República é dividida em três poderes, e nós, eleitores, só podemos votar para dois: Executivo e Legislativo. Assim, se damos muita importância ao Executivo e nos esquecemos do Legislativo, certamente algo vai sair errado.

O Legislativo, grosso modo, elabora as leis e organiza o orçamento. Quando o Legislativo não está em harmonia com o Executivo, nada funciona direito, ou seja, não são votadas leis nem é organizado um orçamento que coaduna com a proposta do Executivo – ou seja, as promessas e propostas divulgadas antes das eleições podem não ser cumpridas.

Você já deve ter ouvido falar em mensalões e tráfico de influência, não é mesmo? Essas coisas só acontecem porque algo não funciona harmonicamente. Tudo bem que quem é corrupto vai querer dinheiro de qualquer forma; todavia, quando há harmonia entre o executivo e o legislativo, tais práticas, em tese, não tenderiam a acontecer por causa da concordância de posições entre o executivo e o legislativo.

A boa escolha do executivo também requer uma boa escolha para o legislativo. Nem sempre aquele vereador, deputado ou senador que promete a obra na sua rua é o legislador mais adequado ou está de acordo com o executivo. Aliás, o legislativo pode impedir determinados abusos do poder executivo; todavia, é importante que haja harmonia entre os dois poderes para não necessitar chegar a extremos, como o denuncismo que costumamos ver em épocas eleitorais.

Retomando o rumo do texto, enquanto damos ampla divulgação aos candidatos do executivo, há uma grande confusão e verdadeira esculhambação sobre os candidatos ao legislativo, especialmente no âmbito federal.

Enquanto no âmbito estadual precisamos escolher deputados estaduais, no âmbito federal precisamos escolher deputados federais e senadores, ou seja, legisladores de dois níveis distintos.

Teoricamente, o deputado federal é o representante do povo e o senador é o representante do poder executivo estadual, ou seja, do governador – no entanto, em vez de ele ser indicado pelo governador, ele é escolhido pela população. E o senador tem outras funções que um deputado federal não possui: entrevistar ministros, diplomatas e outros funcionários que estão diretamente ligados ao poder executivo federal. Ou seja, o senador tem o poder, inclusive, de vetar a indicação de alguém para exercer algum cargo importante – inclusive no poder judiciário, como a indicação de juízes para o Supremo Tribunal Federal, para o Supremo Tribunal de Justiça e outros.

Por outro lado, tanto o deputado estadual quanto o deputado federal exercem aquelas funções de legisladores e de organizadores do orçamento. Se você quer que o candidato ao executivo (presidente e governador) tenha sucesso, então seria importante você votar em candidatos que pertençam ao mesmo partido ou à mesma coligação.

O importante, na hora do voto é ter coerência. Infelizmente, os candidatos a deputado e a senador não ajudam muito a esclarecer sobre as funções que eles vão exercer – muito pelo contrário, alguns ajudam a confundir mais, inventando personagens ou dizendo que fizeram isso ou que vão fazer aquilo quando sabem que não podem fazer nada além de votar leis e organizar o orçamento. E tal confusão é reforçada pela própria instituição do horário gratuito, que reserva pouquíssimos segundos para a propaganda de um deputado e vários minutos para senador e candidatos ao executivo. Além disso, a imprensa não abre espaço para que os candidatos coloquem suas propostas e possam esclarecer a população sobre o trabalho que pretendem realizar.

Os candidatos ao legislativo não deveriam ser expostos como uma espécie de caderno de classificados eletrônico, que só serve para fazer volume ao jornal e, depois, servir para limpar cocô de cachorro ou vidros. Se as pessoas votassem em partidos, poderia haver o voto em lista; no entanto, a nossa tradição é personalista, ou seja, nós votamos em pessoas. Por mais que a legislação diga que o mandato pertença ao partido, nós votamos em pessoas, não em partidos.

Encerrando esse longo post, não vejo uma solução muito grande para os candidatos ao legislativo atualmente a não ser a propaganda de casa em casa, de boca em boca. Infelizmente, o poder legislativo é bastante desvalorizado por todos os lados, apesar da grande importância que ele tem nas vidas de todos. É preciso repensar a propaganda política para o legislativo, pois somente com um legislativo saudável é possível promover a mudança necessária à vida política brasileira.

sábado, 7 de agosto de 2010

Crimes e castigos: quando a violência comum atinge famosos

É impressionante a mobilização da imprensa brasileira diante de determinados crimes. No país onde a impunidade praticamente impera entre os mais abastados é quase impossível vislumbrar a possibilidade da prisão dos culpados quando esses são famosos ou da alta sociedade.

Dos anos 1990 para cá, tivemos alguns casos marcantes. Dentre eles, podemos destacar filhos de juízes em Brasília que simplesmente incendiaram um índio que dormia na rua, achando que era um mendigo; o juiz federal que desviava verba; o jornalista que matou a namorada; os rapazes de um bairro nobre do Rio que espancaram uma empregada doméstica pensando que ela fosse uma prostituta. Em alguns casos, houve punição e um devido acompanhamento da imprensa por se tratar de um caso realmente exótico; em outros, não se sabe exatamente o que aconteceu. Dentre esses casos, há um em que o réu foi condenado, mas está solto, sem previsão de ir para a cadeia.

Longe de questionar a prisão, o que me faz refletir muito sobre tais fatos é o tratamento que a imprensa dá ao caso e a diferença que a justiça dá aos réus dependendo da origem social. Esse fato só fica reforçado com pelo menos dois últimos acontecimentos: o desaparecimento da amante de um goleiro de um famoso time de futebol e o atropelamento do filho de uma atriz de uma grande empresa de comunicação.

O desaparecimento e a morte de uma moça em situação absolutamente delicada (amante de um homem casado e famoso, estando grávida) não teria tanta repercussão se o provável autor do crime não tivesse sido um goleiro de um grande time. Assim, vem a pergunta: quantas mulheres são assassinadas no país por motivos ainda mais torpes?

O atropelamento de um jovem nesse país é outra situação absolutamente banal. Tal caso revelou outra situação ainda mais banalizada: a corrupção policial – segundo os fatos apurados até o momento, houve cobrança de propina para a liberação do carro que atropelara o menino; os policiais aparentemente admitem terem recebido o suborno; os réus alegam que foram coagidos a pagar. E então? Sobra a mãe, que perdeu o filho, como tantas mães que perdem seus filhos para a violência que acomete não somente as grandes cidades, mas todos os lugares onde a civilização ainda não educou os cidadãos.

O que estimula a criminalidade é a certeza da impunidade. Vez por outra há crimes cometidos mediante um estado de insanidade – desespero, acidente etc. Todavia, num caso ou no outro, procura-se, a todo custo, fugir da culpa – haja vista o atual debate sobre a aplicação da lei dos ficha limpa para permitir a concorrência a cargos públicos nas eleições deste ano.

De qualquer forma, mesmo que o réu seja condenado, o que é feito dele? É engaiolado numa prisão fétida e sem as mínimas condições de reabilitação – que, em princípio, deveria ser a finalidade da privação de liberdade. Dentro da cadeia, as pessoas aprendem outro tipo de vida, muito mais cruel do que a vida aqui do lado de fora. Mesmo que o réu seja inocente, ele acaba corrompido pelo sistema lá dentro – afinal, corrupção dentro da cadeia é palavra de ordem.

Assim, quem vai para a cadeia só sai de lá ileso se tiver muito, mas muito caráter. É claro que há casos raros de recuperação, geralmente após passar por uma espécie de “tratamento espiritual” por parte de algumas religiões que se dedicam a tentar “salvar essas almas” (as aspas não são irônicas; apenas reproduzem palavras ditas relacionadas a esses fatos). Por parte do Estado, porém, não há uma solução que realmente chegue aos detentos e que os recuperem da devida maneira.

Há muita discussão também em torno do gasto que existe para manter um preso na cadeia. A bem da verdade, também há toda uma discussão sobre manter na cadeia pessoas que cometeram leves delitos, cujas penas poderiam ser convertidas em penas alternativas. E por que essas atitudes não são tomadas?

Primeiramente, precisamos entender que geralmente quem vai para a cadeia não tem dinheiro. Além disso, geralmente tem a pele mais escura do que a da ala mais abastada de nossa sociedade. Sendo racismo ou não, o importante é saber que, quando a pessoa tem dinheiro, é mais difícil ir parar num ambiente como esse. Para essas pessoas, geralmente há o contrato com os melhores e mais bem preparados e pagos advogados do país. Aos pobres, restam os pobres defensores públicos, que vivem atolados em milhares de processos e, por vezes, nem conseguem conhecer os próprios réus que necessitam de seus serviços. Enfim, é muita coisa contra quem não tem tanto dinheiro.

A solução ideal seria o Estado cumprir seu papel de reabilitar os detentos – acredito piamente que as penas alternativas são muito mais produtivas do que a simples entrada numa jaula. Além disso, é preciso dar ênfase a questões éticas na educação das crianças, a fim de que não busquem a vida de crime para viverem em risco de cair em situação precária.

A educação das pessoas vai muito além da educação formal numa escola. É preciso estimular bons exemplos também pelos meios de comunicação de massa. Se começarmos a enumerar tudo o que nós poderíamos fazer para estimular bons exemplos, acredito que teríamos uma lista interminável, pois não basta o Estado cumprir o seu papel; nós, cidadãos, também precisamos cumprir com o nosso, procurando sempre agir não somente dentro da lei, mas também dentro da ética.

Como diz o meu amigo Senhor Paz, a regra de ética e convivência saudável fundamental está nas palavras de Confúcio: “Faça aos outros somente aquilo que gostaria que fizessem contigo”. Se cada ser humano agir assim, não teremos mais crimes nem precisaremos de correlatos castigos.

Debate presidencial: momento democrático?

Saluton!

Nesta semana, na noite de quinta-feira, 05/08/2010, foi realizado o primeiro debate entre os presidenciáveis na rede Bandeirantes de televisão.

Não é de hoje que se propaga que o debate é o momento mais democrático porque há o confronto de propostas. Além disso, os presidenciáveis podem questionar posicionamentos e opiniões, além de fomentar polêmicas. Nesse último caso, coube ao candidato Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) desempenhar o papel de polemista, mesmo sabendo que suas chances de vitória são mínimas - talvez, por isso mesmo, estivesse mais à vontade para falar o que quisesse.

Quem fala tem de estar seguro sobre o que vai falar. Antes de falarmos, precisamos pensar muito. Não basta abrir a boca e deixar que nossas palavras fluam como as águas de uma cachoeira. Às vezes, é preferível ficar calado sobre um assunto quando não se está seguro quanto ao conhecimento do mesmo. Ou seja, se não se conhece o assunto, é preferível nada falar sobre ele, com o risco de cair em achismos e ideias pré-concebidas equivocadas.

Nesse ponto, o ritmo da televisão é bastante prejudicial. O candidato tem de sintetizar assuntos que, geralmente, são fruto de vidas inteiras de trabalho em 3, 2 ou mesmo 1 minuto. Isso requer não somente um raciocínio absurdamente rápido e organizado, mas também uma perspicácia fora do comum. Assim, o candidato tem de ser praticamente um super-homem (ou uma super-mulher).

Na dinâmica, os candidatos fazem perguntas entre si. Até que ponto temos confronto de opiniões efetivamente? Será que perguntas feitas a todos os candidatos não seria mais saudável? Afinal, se queremos comparar os candidatos, essa modalidade permitiria construir, na cabeça do eleitor interessado, um quado comparativo. A partir desse quadro comparativo, sim, poder-se-ia haver um questionamento entre os candidatos sobre um ou outro aspecto.

O que se viu - e o que se verá nos seguintes - foi praticamente uma troca de questinamentos entre Dilma Roussef (PT) e José Serra(PSDB). Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) pareciam meros coadjuvantes, como se eles não fossem também candidatos ao mesmo cargo, com propostas e ideias que poderiam mostrar ao eleitor outras possibilidades de governo.

Por fim, não se pode deixar de lado uma outra informação: o que pensam e o que propõem os outros candidatos que não têm representação parlamentar. Alguém dará ouvido a eles na televisão? Mesmo que a audiência seja baixa, a democracia deve prevalecer, permitindo que todos apareçam e mostrem suas propostas, suas ideias, seus pensamentos, mesmo que não sejam as mais populares ou que sejam as mais equivocadas e malucas. O importante é o eleitor conhecer todos e não ficar preso a um pequeno grupo.

Quanto à audiência, não seria mais interessante um debate que envolva várias emissoras? Afinal, é o futuro do país em jogo e é importante mobilizar a população para esse fato. Está na hora de as emissoras de televisão e rádio deixarem de lado o ponteiro da audiência e pensar TAMBÉM no patriotismo. Não adianta ficar tentando induzindo as pessoas a votarem nesse ou naquele candidato por meio de manipulações de notícias. É hora de levar a sério o exercício da profissão jornalísta.

domingo, 2 de maio de 2010

Eleições 2010: Alerta amarelo e coerência

Saluton!

Pelo que se anuncia, vamos ter uma eleição bastante conturbada.

Blogs independentes demonstram que a baixaria vai rolar solta da internet.

É importante estarmos atentos às manipulações da grande imprensa para sabermos como nos posicionarmos diante desses ataques. Afinal, muitos tentam nos confundir dizendo que não há muita diferença entre os dois pré-candidatos com mais possibilidade de chegar à Presidência. Se não houvesse diferença, não haveria tanta polêmica acontecendo antes mesmo do tiro de largada.

Por fim, cumpre lembrar que teremos eleições também para Senadores, Deputados Federais, Deputados Estaduais e Governadores. Se queremos governos que funcionem adequadamente, é preciso votar coerentemente: votar na situação num cargo e na oposição em outro é criar um balaio de gato que leva ao fisiologismo como o que está instalado atualmente.

Sempre que possível, procure ver a mesma informação por diversos ângulos - não adianta ler somente Folha e Globo; é preciso ler blogs de grandes jornalistas, como Paulo Henrique Amorim, Luis Nassif e Luiz Carlos Azenha.

Gxis revido!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Opinião pública de um sujeito da esquina

"Não se dá independência ao juiz para ele ficar consultando o sujeito da esquina. Vamos ouvir as ruas para saber o que o povo pensa sobre o STF conceder ou não um habeas corpus? Ou os nossos blogueiros? A jurisdição constitucional é, por definição, contramajoritária. Ela só funciona por ser contramajoritária." Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) (Retirado de O Globo: http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/05/07/gilmar-diz-que-juizes-nao-devem-consultar-sujeito-da-esquina-755739775.asp)

Estou me lixando para a opinião pública. Até porque a opinião pública não acredita no que vocês escrevem. Nós nos reelegemos mesmo assim”. Sérgio Moraes (PTB-RS), relator do Conselho de Ética. (Retirado do blog Curiosando: http://www.curiosando.com.br/05/2009/estou-me-lixando-para-a-opiniao-publica)


Em primeiro lugar, ao contrário do que a maioria dos blogueiros, não vou criticar gratuitamente nenhuma das duas figuras públicas - até porque ambos já estão tão desmoralizados pela internet afora que fica difícil entender como alguém ainda lhes dá alguma atenção. (Quem quiser conferir, basta fazer uma pesquisa por qualquer site de busca.)


Para começo de conversa, eu fiquei pensando no que disse o presidente do STF depois de tantas opiniões polêmicas emitidas ao longo de seu primeiro ano de mandato. Penso que nem o que o presidente da República diz sai tanto nos jornais ou ganha tanto destaque quanto o que ele diz. Tudo bem que há independência entre os três poderes; porém, percebe-se que ainda o incomoda a repercussão do famoso habeas corpus dado ao banqueiro Daniel Dantas, um sujeito que, aparentemente, não costuma ficar muito em esquinas, não é verdade? Pelo menos, não na minha.

De qualquer forma, numa esquina dessas da vida, um repórter gravou e divulgou essa frase antológica cunhada pelo deputado gaúcho Sérgio Moraes. Ele não foi arrogante pura e simplesmente: ele verbalizou o que certamente é uma opinião corrente no meio político. Nesse ponto, acredito até que ele tenha sido bem honesto.


O único erro aparentemente cometido pelo deputado foi ter confundido duas coisas: opinião pública e o que se passa na cabeça das pessoas.


Em nenhum momento foi perguntado a mim ou a você sobre qualquer coisa para ser decidida nesse país. Aliás, como podemos saber o que se passa em Brasília? Sintonizando nossos rádios às 19h para escutar esse programa extraordinário, campeão de audiência - afinal, está no ar em praticamente todas as rádios - chamado A Voz do Brasil. Você escuta? Eu confesso que sim, mas só quando realmente há possibilidade - afinal, costumo trabalhar de 7h30min às 22h.


Então, quem é a Opinião Pública? A resposta está logo em seguida, quando o deputado diz que ninguém acreditava no que eles escreviam. O deputado está errado? Se alguém tiver dúvidas, retome o que se passou em outubro de 2006, quando praticamente toda a imprensa estava abrindo seus microfones e câmeras para analistas contra o governo Lula, e o atual presidente da República foi reeleito com mais de 60% dos votos. Nessa eleição, também foi eleito o nobre deputado supracitado.


Ou seja, a opinião pública - tão propalada como se fosse o alvo do Instituto Brasileiro de Pesquisas de Opinião Pública, o IBOPE - nada mais é do que o grupo de analistas, cabeças coroadas pelas empresas jornalísticas, que escrevem exatamente o que esses mesmos donos querem - afinal, se algum analistazinho se meter a inteligente e não redigir o texto como o emitido, não ganha um zero como um aluno de Português que fez a redação errada, mas sim um bilhete azul, como aconteceu com Franklin Martins, Sidney Rezende e outros que procuraram manter uma certa independência, mesmo não deixando de ser críticos.

Você, caro(a) leitor(a), tem sua opinião ouvida? A sua opinião, sim, é do povo - o que, a rigor, deveria ser pública. Todos os meus amigos sabem das minhas opiniões sobre determinados assuntos; mesmo assim, a imprensa não as escuta - afinal, não sou uma cabeça coroada (paga) para dizer o que bem entender (desde que de acordo com a cartilha da empresa) em qualquer lugar.


De qualquer forma, eu, sujeito que vivo andando por diversas esquinas, resolvi emitir a minha opinião - e torná-la pública por meio deste blog. Mas sei que esta opinião nem chegará a incomodar nem o presidente do STF nem qualquer deputado, pois, pelo que se pode ler acima, eles não escutariam pessoas comuns. Eles agem de acordo com sua própria consciência - graças a Deus, cada um tem a sua.

O que me incomoda mesmo é essa tal "jurisdição contramajoritária". Será que juízes sempre têm de ser "do contra"? Ninguém está querendo que eles consultem a população para decisões judiciais - mesmo quando o julgamento requer a presença de júri popular - mas devem pensar nas consequências dessas decisões para a sociedade que lhes delegou o poder de decisão - aliás, essa é uma situação bem interessante: eles não são eleitos por nós, mas tomam decisões por nós; tudo bem que eles geralmente participam de concursos públicos e passam, depois são indicados por nossos governantes, mas não podem agir sem pensar nas consequências para qualquer pessoa - inclusive para o sujeito da esquina.

Esse tal sujeito da esquina - seja lá qual ela for - paga impostos que sustentam todos os três poderes das três instâncias (federal, estadual e municipal), bem como o sujeito que mora na cobertura da Vieira Souto, Ipanema, Rio de Janeiro, ou que trabalha num dos prédios administrativos de Brasília. Ou seja, esse sujeito sou eu, é você, somos nós.

Por outro lado, o sujeito da esquina pode muito bem me dar uma informação caso eu precise quando eu estiver numa. As duas figuras públicas supracitadas, no entanto, requerem agendamento e bastante paciência para que eu possa tirar dúvidas sobre quaisquer assuntos de suas alçadas.

Eu só me pergunto como eles se sentiriam se algum deles, algum dia, alguma hora (própria ou imprópria) parassem numa esquina, precisando de informações. Será que eles dariam ouvidos a algum sujeito que ali estivessem? Eu daria.

Sendo assim, poderíamos retomar uma tradição mineira e, todos nós, formarmos um novo Clube da Esquina. É claro que o que foi formado na década de 1970 é até bem talentoso e produz até hoje uma das mais ponposas obras musicais - cujas canções não cansam de tocar nas rádios de MPB.

Falando nisso, será que eles não se sentiram ofendidos quando o presidente do STF procunciou as palavras acima? Afinal, eles são sujeitos da esquina - do Clube da Esquina. Um Clube!

Outro que poderia ter se sentido ofendido foi Djavan, autor da canção "Esquinas" (ou seja, Djavan também é um sujeito da esquina, da canção "Esquina"): "Só eu sei as esquinas por que passei/ Só eu sei, só eu sei...". E eu mesmo já nem lembro mais por quantas esquinas passei; afinal, os anos passam, o tempo voa... E lá se vão as esquinas.

E por que esses artistas não procunciaram absolutamente nada sobre as palavras acima? Por que eles são alienados e só pensam em música? Nada disso. Simplesmente eles sabem que não têm o que falar sobre o que foi dito; eles sabem muito bem usar as palavras, tanto que suas canções continuam sendo tocadas nas rádios até hoje e muito pedidas nas apresentações que realizam.

Assim, nada melhor para pensarmos o seguinte depois disso tudo: precisamos ter muito cuidado com o que dizemos, pois, se não, acabaremos passando pelo ridículo e seremos ridicularizados pelos analistas independentes - esses, sim, a opinião pública - pois são sujeitos que passam por qualquer esquina, sem se preocuparem com o que dizem o presidente do STF ou os nossos nobres deputados. Apenas vivem, pagam seus impostos e sustentam o sistema estabelecido. E sabem, muito bem, usar as palavras certas no momento certo e na hora certa.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Novos Rumos

Minha vida literária está sempre envolta a revoluções.

Como meus caros e raros leitores já devem ter notado, Vila Potira há muito não está sendo publicada aqui neste blog.

Essa obra, nos meses de dezembro e de janeiro, passou por um período de revisão ortográfica e ampliação. Assim, reunido com minha equipe de trabalho, decidimos que Vila Potira voltará em um novo blog - a ser divulgado aqui e em outros veículos - e com um novo nome: Vila Potira - O romance da diversidade.

Pretendemos, também, lançar uma versão escrita da obra em versão PDF, com direito a outras coisas que estarão lá disponíveis.

Este blog, a partir de agora, passará a ser destinado à publicação de textos opinativos e de outros assuntos pertinentes. Não tenho nehum assunto pertinente no momento; contudo, texto não faltam a justificar a fumaça produzida por esta Usina.

Peço desculpas a meus caros e raros leitores pela grande ausência, mas não disponho de muitas verbas para me manter, nem para promover a revisão da obra - além do mais, eu percebi que ela precisava de vários ajustes.

Agradeço a compreensão de vocês!
Muita paz!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

CAPÍTULO 42: Depois do jantar

Todos voltaram aos poucos para a sala de estar.
No caminho, Caroline e XAnde fizeram questão de parar Duda.
CAROLINE: Que que houve? Num ta mais a fim de dividi o bofe com a gente, é?
DUDA: Eu num sô mais como vocês, ta entendendo? Se quiserem chamá outro para as sacanagens de vocês, tudo bem. Eu sei muito bem que a despedida de solteiro de vocês vai ser uma tremenda duma suruba, mas eu não participo disso. Não mais!
XANDE: Fala sério, Duda! Esse cara é mó negão, deve tê um pau maravilhoso! Vai sê ótimo vê ele comendo a tua irmã.
DUDA: Deixa o Lelo fora iddo, entendeu?
CAROLINE: Tá com ciúmes dele, né? Tá com medo de perdê ele pra mim!
XANDE: Ou pra mim.
DUDA: Não é da conta de vocês!
Duda aproximou-se de Lelo.
DUDA: Se minha irmã e meu cunhado tentarem se aproximá de você, caia fora. Eles querem te arrastá pruma suruba.
LELO: Que horrô!
Chegando à sala de estar, Bárbara chamou Lelo para conversar com ele em particular.
BÁRBARA: Eu gostaria muito de te agradecê, mais uma vez, de tê salvado minha filha, Liliane. Eu e meu marido mandamo ela viajá pro exteriô pra se tratá e pra relaxá, respirá novos ares. Quando ela voltá, ela vai falá com você pra te agradecê pessoalmente.
LELO: Eu é que fico muito gradicido por tudo que cês dizero por eu hoje. Jamais pensei Cuma pessoa comeu pudia saí de baxo pa ta qui comeno na merma mesa de vocês.
BÁRBARA: Mas, tem mais uma coisa queu preciso falá com você. Num sei se você vai acreditá nem vai concordá. Cê é cristão, né?
LELO: Sim. E respeito todas as outra religiõ.
BÁRBARA: Ótimo, porque o queu tenho pra falá envolve tudo isso. Eu sô mãe de santo e sô médium vidente. E tem dois espíritos amigos que te acompanham des que tu chego e que querem porque querem dá um recado pa tu.
LELO: Cumé que é? Ô dona, eu num credito nessas coisas não.
BÁRBARA: Um é uma senhorinha baixinha e bem sorridente. O outro é um rapaz alto, forte, bonito, com uma toalha amarrada no pescoço.
Lelo percebeu que Bárbara falava de Etelvina e de Rique.
LELO: Mô Deus! Eu cunheço esses dois.
BÁRBARA: A senhorinha disse pra cê num se preocupá com ela, porque ela ta bem, e que ta cuidando muito bem de sua mãezinha. Que tua mãe tá se curando do vício da bebida. E que ta cuidando também de você e do netinho dela que tá pra nascer. Ela roga pra que você e o Duda sejam muito felizes.
LELO: Minha mãe é bêbada, por isso a gente nunca se demo muito bem. E minha irmã ta esperano um filho... Mas, ela feliz com eu e com o Duda? Cume quela sabe disso? E a senhora? Mô Deus!
BÁRBARA: O outro diz que te ama muito e que também ta cuidando de você. Diz que tu num teve culpa da morte dele, pois a raiva que ele sentia, sentia dele mesmo. E que tu deve prepará teu coração, pois decepções muito fortes vão te acontecer?
LELO: Decepições? Como assim?
BÁRBARA: Eles dizem que num podem dizê mais nada. Num têm autorização.
Lelo sentou-se pensativo.
BÁRBARA: Eu num costumo fazê isso, porque esse tipo de trabalho só deve acontecê em local com prévio preparo, mas eles tavo insistindo tanto que achei melhó te puxá pra cá e te falá.
LELO: Brigado, Dona Bárbara. Mô coraçõ ta mais aliviado. Minha vó morreu de câncer e minha mãe me acuso dela tê morrido por minha causa. Eu saí de casa brigado cum minha mãe, sabe? E minha vó fico cuidano dela.
BÁRBARA: Entendo, meu filho.
LELO: E o Rique foi morto num sei por quem. Pensei quele fosse dizê.
BÁRBARA: Ele era teu namorado antes de você ficá com o Duda?
LELO: Co... como assim?
BÁRBARA: Num precisa se assustá. No Candomblé o que mais tem é homossexual. Na minha religião, ignoramos o que as pessoas fazem fora do terreiro; o que importa é que elas sejam acolhidas. Acolhemo gente boa e gente má, porque Deus aceita todos como eles sõ.
LELO: É! Ele era meu amigo e a gente cabo teno um caso. E a gente tava brigado quanele morreu, sabe?
BÁRBARA: Por quê?
LELO: Puqueu já amava o... Duda..., e ...o Rique pegô eu e... o Duda... junto.
BÁRBARA:Não precisa ficá constrangido; fui eu mesma que falei pro Duda ficá com você.
LELO: A sinhora? Mas, num é pecado dois home ficá junto?
BÁRBARA: Os homens tentam convencê os outro de acordo com o que acham que é correto. Eles esquece que a natureza é sábia e fala mais alto quando ela se sente amordaçada. E era o que tava acontecendo com o Duda: ele e tu têm uma natureza que leva a tê sexo com outro home; é uma natureza especial, faz parte da vida de cês dois. A questão toda é não forçá a barra: deixá Ca natureza faça o que ela tem de fazê.
LELO: Mas a natureza também num deu vícios, vontade de matá, vontade de machucá?
BÁRBARA: A natureza é sábia: se ela deu essa vontade, deve tê algum motivo. Mesmo a destruição faz parte da lei de Deus. A morte também é natural; da mesma forma, a violência faz parte da vivência dos animais, assim como o amo. Mas Deus nosdeu também a inteligência para sabê lidá com nossos instintos e nossos sentimentos. E cabe somente a nós lidá com isso. Assim, viva esse amo que cês têm um pelo outro sem culpa e sem deixá que nada atrapalhe.
Lelo, emocionado, abraçou Bárbara.
LELO: Brigado, Dona Bárbara!
BÁRBARA: Eu é que agradeço por tê te ajudado de alguma forma.